Ventos nos ajudam a velejar – A história de Kelly Borges

Ventos nos ajudam a velejar – A história de Kelly Borges

Como falar da minha história? Esta não é uma missão fácil, portanto poderia começar parafraseando Ferreira Gullar, afinal entender o rumo que a vida nos leva muitas vezes é bem complicado. Foram muitas as dificuldades que me fizeram ser quem eu sou hoje, por isso, prefiro apropriar-me das palavras de Cora Coralina, porque sou eu esta mulher que sempre procura arrancar pedras e plantar flores, escalando esta montanha chamada vida. Procuro guardar cada pedra, por menor que seja, elas representam cada vez que quis desistir, mais ainda, elas representam cada conquista minha.

Os ventos que me trouxeram até aqui não foram uivantes, pelo contrário, foram silenciosos, muitas vezes, gélidos. Alguns poucos vendavais, outros furacões, mas na maioria das vezes, sou movida pelo simples sopro da brisa. A minha caminhada está sendo construída por rumos que não foram por mim trilhados. Não era esse o caminho que sonhava, pensava em ser uma mulher independente, acreditava que iria morar sozinha, talvez tivesse apenas uma filha, em um apartamento com tudo no lugar e teria uma profissão de prestígio, provavelmente seria advogada, afinal, apesar da admiração pela medicina, minha fragilidade em relação ao sangue, não me permitiria encarar uma aula de anatomia.

Meu futuro estava muito bem planejado, tudo aquilo era o meu desejo, o meu plano de vida! Entretanto, um rodamoinho apareceu em minha direção e mudou toda minha rota. O destino me conduziu a novos ares e encontrei na bolsa auxílio a possibilidade de concluir o antigo segundo grau, comecei a fazer o Magistério. Com o Normal concluído, seria fácil começar a trabalhar e poder financiar a minha faculdade de direito. Contudo, não foi o que aconteceu e mais uma vez o destino me surpreendeu. Bastou eu pisar pela primeira vez na sala de aula, para me apaixonar por aquela que hoje eu acredito ser a minha missão. Amor à primeira vista? Sim, aconteceu desde a minha primeira substituição, encantei-me pela pedagogia.

Daí por diante, todos os meus planos foram desfeitos. A ideia de ter apenas uma filha se transformou em três lindas razões para eu viver, sem falar no quarto presente que a vida me deu, que não foi gerado em meu ventre, mas nasceu do meu coração. Estes são os quatro maiores motivos que tenho para levantar-me todos os dias e querer fazer do mundo um lugar melhor. São os meus pilares, os quatro maiores motivos de orgulho, alegria e amor. O apartamento com tudo no lugar deu espaço a uma casa em que não existe silêncio, um lar que até as paredes narram a nossa história, momentos difíceis, momentos alegres, momentos tristes, mas sempre momentos de muito amor… De fato, os meus melhores momentos.

A profissão de prestígio que eu sonhava, deixou de ser advocacia. Fui escolhida pelo magistério. Entendi que o maior prestígio de uma profissão está em fazer aquilo que nos faz feliz e que fazemos por amor. Isso me fez compreender que não existe plano perfeito, não somos nós que decidimos qual o percurso iremos seguir e ainda bem que é assim, pois nada de tudo aquilo que sonhei poderia ser melhor do que a realidade que vivo hoje. Este é o verdadeiro mistério desta nossa jornada, aproveitar cada instante e valorizar os pequenos detalhes, aqueles que não somos capazes de enxergar, mas que conseguimos sentir com a alma.

O vento também se encaminhou de me levar para próximo de grandes inspirações, não me refiro aos grandes pensadores da educação, mas pessoas com quem tive a honra de conviver e ainda convivo. Eles me fizeram crer que eu pertencia a uma legião de inconformados, que busca mudar o mundo pela educação. Inspirações estas que me apresentaram aos fios que tecem a teia da transdisciplinaridade, aos tijolos que destroem as paredes da sala de aula, abrindo-as para as janelas do mundo. Com estes meus irmãos de sonhos descobri os saberes que são necessários para a educação do presente, tornando professores e estudantes atuantes no processo de ensino e de aprendizagem. Também conheci metodologias que valorizam o aprendizado construído a partir da curiosidade e da descoberta, atribuindo sentido a cada novo conhecimento e transformando a escola em uma propulsora de sonhos.

Há algum tempo, descobri-me na coordenação pedagógica, cargo que me completa a cada dia e que me permiti contaminar cada professor com esse meu inconformismo, afinal se existe alguém que pode mudar o mundo, somos nós, professores que se reconhecem como mediadores, que estão livres da arrogância do saber, que não se consideram detentores únicos do conhecimento, mas guias desta caminhada, seres humanos preocupados em formar pessoas felizes e transformar vidas. Profissionais dedicados a ensinar as crianças para que nunca percam a sede de aprender. E é este o meu principal papel hoje, na rede Alub.

Acredito que a vida é sim uma colcha de retalhos e cada história que vivemos é um retalho que costuramos à nossa colcha. Durante os meus anos de profissão, costurei muitos retalhos. Fui testemunha de muitas metamorfoses, crianças que se transformaram em adultos conscientes do seu papel no mundo e felizes, acima de tudo. Professores que começaram a entender o poder que têm de transformar vidas e a responsabilidade de afetá-las positivamente. Quando a minha colcha estiver finalmente concluída, espero ter deixado a minha marca nos retalhos de outras pessoas. Hoje, tudo o que faço, faço com a vontade de que meus pais se orgulhem de mim, faço com a esperança de que seja o espelho para meus filhos, faço com a certeza de que posso encontrar em meu esposo todo apoio e suporte que eu precisar. Tudo o que faço, tenho a intenção de tocar o coração das pessoas, de fazê-las sentir o valor de cada despertar. Apesar de ser “aquela que passa sem ninguém ver”, pretendo ser inesquecível na vida daqueles que contribui para a transformação, sei que o que estou plantando hoje, possivelmente não participarei da colheita, contudo sempre me dedico a preparar o solo mais fértil, cultivando a curiosidade, a coragem e o amor.

Enfim, esta é a minha história, esta sou eu, Kelly Borges de Alarcão, a filha do vento, amante das transformações da vida e cultivadora dos sonhos impossíveis.

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