A história de vida do professor Higor Gleidson Costa Cruzeiro

A história de vida do professor Higor Gleidson Costa Cruzeiro

Venho de uma família bem humilde. Meus avós largaram tudo no interior do Rio Grande do Norte para tentar a vida em Brasília. Enquanto meu avô servia café e água no Senado Federal, minha avó limpava casas e lavava roupas para as pessoas. Desta forma meus avós criaram seis filhos com muita dificuldade.

Três dos filhos estudavam de manhã, pois só havia roupas e calçados para apenas três deles, e assim que esses chegavam em casa, passavam as roupas e calçados para os outros três filhos estudarem de tarde. Geralmente as roupas eram doadas pelas pessoas as quais minha avó lavava e passava. Minha mãe engravidou nova e foi obrigada a casar com meu pai, que, como um homem tradicional da época, obrigou minha mãe a largar seus estudos e trabalho para ser dona de casa.

Meu pai demorou muito para me matricular no colégio e acabou que só comecei a estudar a partir do Jardim III, hoje 1° ano do Ensino Fundamental. Eu me adaptei fácil ao colégio e logo consegui me manter no mesmo nível dos alunos da minha classe. Estudei meu ensino fundamental e médio todo em escola pública. Vivi em uma casa com um pai machista e extremamente agressivo quando bebia. Aliás, meu pai era alcoólatra, um ser humano fantástico quando sóbrio, porém um espancador quando bêbado, chegando quase a tirar a vida da minha mãe, irmã e a minha própria vida algumas vezes, fazendo com que minha mãe pedisse o divórcio quando completei cinco anos de idade.

Nesse momento, minha irmã e eu vivíamos um briga judicial pela nossa guarda, passando um drama absurdo, onde quem mais sofria e se prejudicava éramos minha irmã e eu. Porém, o destino tirou o meu pai de mim logo após eu completar 10 anos de idade num terrível acidente de carro. Este fato mudou completamente a estrutura da minha casa, pois minha mãe se viu na necessidade de voltar ao mercado de trabalho para sustentar nosso lar. Nesse cenário fui forçado a encurtar minha infância para ajudar no orçamento da casa, onde comecei a trabalhar muito cedo.

No Ensino Fundamental, ainda pude me dedicar somente aos estudos, estudei em um colégio chamado Centro de Ensino 04 em Taguatinga Norte. Nesse colégio, conheci várias professoras e professores que mudaram muito minha percepção de estudo. Foi neste cenário que me deparei com uma professora que marcou muito minha adolescência, ela fazia várias rodas de leitura na escola contando histórias incríveis da literatura brasileira. Foi ela que me fez ficar apaixonado pelo autor Pedro Bandeira por meio da leitura do livro “Descanse em paz meu amor” que ela leu para alunos da escola em 1998, quando eu estava na 8° série.

O fato foi tão marcante que procurei o livro por vários anos e só consegui comprar o mesmo em 2016. Mesmo com toda a dificuldade financeira vivida em casa após a morte do meu pai, minha mãe sempre incentivou e me ajudou nos estudos, dizendo que era para eu estudar, pois podiam me tirar tudo na vida, menos o meu conhecimento e que, além disso, dificilmente eu daria certo na vida se não investisse nos estudos.

Veio então o Ensino Médio, e com isso uma maior independência com relação aos estudos. Nessa época minha mãe já não tinha tanto tempo para me ajudar devido ao excesso de trabalho, então ficava por minha conta estudar e cuidar da minha irmã. Nesta mesma época, comecei a trabalhar em uma banca de jornal, então fiquei com a missão de estudar, trabalhar e cuidar da minha irmã e da casa. Nesta época já sonhava em estudar na UnB, pois achava que era a melhor universidade de Brasília e também porque sabia que minha mãe não teria condições de bancar uma universidade particular. Já tinha em mente que queria estudar matemática, pois desde o Ensino Fundamental esta era a disciplina em que eu me destacava.

Comecei então no Ensino Médio a me dedicar a prova do PAS, mas o problema dessa vez é que no 3° ano minha mãe não tinha dinheiro para pagar a 3° etapa, o que me fez ser excluído do processo. Terminei o ensino médio e me vi num cenário muito complicado, passar na UnB ficou mais difícil, então procurei um cursinho pré-vestibular. Dessa vez, o obstáculo é que eu não tinha condições financeiras para pagar, então procurei o concurso de bolsas do Alub, fiz a prova, comprovei baixa renda e consegui uma bolsa de 100% na época. Fiz um ano de Pré-Vestibular e não consegui passar na UNB, mas minha experiência no Alub foi ótima, pois para o curso ceder uma bolsa de 100% eu precisava trabalhar como monitor nas horas vagas e acabei sendo monitor durante um ano no Pré Vestibular.

Vendo os professores que o curso tinha e, vivenciando a experiência de ser professor, mesmo que como monitor, encantei-me na época pela instituição e me vi sonhando que um dia depois de formado, eu seria professor do Alub. Acabei passando na Universidade Católica de Brasília em 2004 e, por ter uma baixa renda, consegui na época uma bolsa de 93%, então acabei estudando por lá mesmo com a ajuda do meu avô, que custeava o restante da graduação.

No 3° semestre na Católica, acabei passando pela primeira vez na UnB, porém como eu trabalhava na época, não pude ficar muito tempo, pois os horários não eram compatíveis com meu trabalho, mas mesmo assim ainda sonhava em estudar na UnB. Tentei várias vezes me transferir para a UnB, porém não dava devido ao fato de eu estar trabalhando.

Em 2007 me formei, demorei quase um ano para conseguir meu primeiro emprego de fato, com carteira assinada como professor. Trabalhei com ensino fundamental I e II, EJA, alfabetização de idosos e ensino médio em várias escolas, fiz pós-graduação, comecei um mestrado na Argentina e, por um dia na minha vida, fui mestrando em Engenharia Civil na UnB.

Durante este período, fui rejeitado duas vezes para entrar no Alub, porém na minha 3° tentativa e com cinco anos de experiência, em 2013, fui chamado para ser professor no Alub, realizando, assim, um sonho desde o Pré-Vestibular.

Comecei a lecionar matemática no Ensino Fundamental II, com três meses de trabalho fui convidado a dar aula no pré-vestibular, esse dia foi um dos dias em que fiquei mais nervoso na minha vida. Com seis meses de casa, fui convidado a dar aula no Ensino Médio. Depois, quando completei dois anos de Alub, fui convidado para ser coordenador da cadeira de Matemática do Ensino Médio.

Em 2016, passei no mestrado em Teoria dos Números em Matemática pela UnB. realizando, pela primeira vez, o sonho efetivo de estudar plenamente na UnB, é claro que com ajuda do Alub, que aceitou uma redução drástica nas minhas horas aulas, para que eu conseguisse trabalhar e estudar.

Concluo meu mestrado em junho de 2018 e sou extremamente grato a todos que participaram de fato para que eu pudesse realizar meus sonhos. Hoje eu sou o Higor Cruzeiro, que venceu através do estudo, vindo de uma família onde poucos familiares terminaram sequer o Ensino Médio; fui o primeiro integrante da minha família a ter o terceiro grau completo quase matando meu avô de felicidade, no dia em que me formei, por ver alguém formado na família; fui também o primeiro da família a ter uma pós-graduação, e, se Deus quiser, serei o primeiro da família a ter o título de mestre.

Higor Gleidson Costa Cruzeiro

Estas conquistas fizeram com que os membros da minha família começassem a estudar e, hoje, temos na família quase 10 membros graduados e o melhor, o Higor Cruzeiro, que hoje vocês conhecem, saiu de uma pessoa, que provavelmente não daria certo na vida, para um integrante respeitado pela família, pois venceu na vida através dos estudos.

Só não consegui realizar um sonho na vida ainda, que é dar uma casa de presente para minha mãe, porém isto uma história para os próximos episódios.

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