É preciso ter paixão para ser professora. A história de Sandra Mara Ferrari.

É preciso ter paixão para ser professora. A história de Sandra Mara Ferrari.

Nasci numa família de classe média e cristã. Meu pai é um homem além do seu tempo, sábio e longânimo e minha mãe é uma mulher enérgica, proativa e generosa!  Única menina entre dois meninos: o mais velho que desde cedo se mostrou trabalhador, metódico, cartesiano e de um coração sensível e bem humorado; e o mais novo sagaz, entusiasmado pela vida, inteligente e questionador. Estar entre os dois me deu o dengo e a segurança necessária para crescer confiante e determinada, entendendo que não merecia nada menos do que o amor e a segurança que tinha em família.

Quando pensava no que “ia ser quando crescer” não passava pela minha cabeça ser professora. Não que houvesse tido professoras ruins, mas acho que não era o que eu imaginava que fosse me satisfazer como profissão. Queria ser pianista. Mas o mais curioso é que de uma forma ou de outra, sempre estava envolvida com crianças. Esse envolvimento cresceu e eu decidi ser professora e de tornar essa decisão, um marco!

A ideia de conviver com crianças era tão motivadora que tive sete filhos, hoje, já não são mais crianças, porém continuam sendo minha primeira escola, meu aprendizado de fé, oração, súplica, empatia, solidariedade, afeto e da real sensação de ter o coração fora do corpo! A eles meu amor, minha coragem e minha certeza de que nada foi em vão!

Aos 18 anos, recém-formada pela Escola Normal de Brasília fui dar aula no Colégio do CEUB numa turminha de maternal e foi ali que um pensador  me chamou a atenção, primeiramente por sua visão de e sobre educação; depois, o amor e empenho com que praticava essa visão. E se “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção.” (FREIRE, 2011, p. 24), como se criaria possibilidades se não se ama o que faz, se não há entrega por aquilo que almeja alcançar? Descobri-me apaixonada pela educação! E como eu poderia ter optado por trabalhar com bicho, boca ou mato, mas decidi trabalhar com gente, entendi que estudo, perseverança, correção e empatia me seguiriam pelo resto da vida. Com esse pensar, chego ao que Miguel Arroyo (2013) chama de humana docência, que traz um olhar para além do ensinar, mas também “socializar conhecimentos, saberes, competências.” entendi que ser professora é muito mais que ensinar é marcar o outro. É ser apaixonada pelo que se faz, e eu sou!

“Paixão não é um luxo, um floreio ou uma qualidade que só alguns professores possuem. É essencial para um bom ensino.” Christopher Day.

Os professores se renovam, modificam-se os currículos, as leis, as estruturas curriculares, mas o real motivador, o motor para que este percurso ocorra estará lá, permanente, duradouro.  O ensino, a educação, o docente, o professor, o mestre, a professora são elementos que estarão sempre unidos em busca do que se possa formar. Minha busca inicial foi pelo diferente, encontrei-o e continuo a encontrá-lo. E dou graças por isso, enche-me de esperança. Movida por este fator, procurava o “algo a mais” e por vezes me deparava com uma nomenclatura que não aceitava o da vocação. A professora não é um ser vocacionado para dar aula, para ter paciência, para saber lidar com os fatores de sua profissão. Mas se não é vocação o que é? Pois é, foi isso que percebi, é paixão. Meu intuito de paixão está naquela que não se acomoda que não se dá por satisfeita, que não “cruza os braços” e “espera sentado”. A paixão é aquela que luta, luta com “unhas e dentes” pela e para a educação. Pensando no sentido formador que nela exerce. Desacomodar, desconstruir, desnaturalizar, com respeito movido por uma paixão que nos move dia-a-dia em busca pelo novo.

Day (2006) fala que o trabalho do professor ao mesmo tempo em que é exigente quanto a conteúdos e práticas, também é emocional e intelectualmente desafiador. É árduo, é cansativo, mas, sobretudo, para mim, é gratificante.

Hoje, como diretora do Colégio Alub – unidade do Guará, professora de graduação e pós-graduação nas diversas áreas da educação, com paixão, entendendo que a tarefa de ensinar é uma tarefa profissional que exige amorosidade, criatividade, competência científica mas recusa a estreiteza cientificista, que exige a capacidade de brigar pela liberdade sem a qual a própria tarefa fenece. “Sou professor a favor da esperança que me anima apesar de tudo” (FREIRE, 2011, p.100). Isso é o que me leva ao entusiasmo e ao compromisso de fazer minha parte, o melhor para a educação.

A vontade de prosseguir (não somente a minha, como professora, mas a de tantos outros professores que virão e que já estão por aí espalhados) nos faz partilhar desse mesmo entusiasmo que, só quem é apaixonado pela educação, é capaz de oferecer e doar!

Sandra Mara Ferrari, diretora da unidade Guará.

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